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Esculpir por entre a teia urbana

Esculpir por entre a teia urbana

O edifício teve uma implantação difícil. Situado numa escarpa típica da cidade, tem aos seus pés uma via de intenso tráfego (e também de enorme imobilidade, em dias mais complicados), que, com seu vaivém quase interminável de veículos, a traçar em amarelo e vermelho riscos e círculos pequenos e numerosos, tinge ritmadamente o asfalto predominante. Um paredão de prédios o circunda, no qual a construção de linhas sóbrias, a sediar o complexo hospitalar da Beneficência Portuguesa, faz com que figuras em branco, por vezes esmaecido, pontuem continuamente as ruas do entorno.
O projeto de Eurico Prado Lopes e Luiz Telles também abriga seus desafios internos. Com destacadas estruturas que salientam o tom industrial, à moda do Pompidou, tem entradas diversas, a facilitar a circulação no conjunto, que lida com um jogo de permeabilidade/confinamento na arquitetura em relação às variadas ocupações do centro. Nas cercanias e mais abaixo dos corredores onde b-boys treinam seus passos diariamente e onde grupos de estudantes se espalham por mesas, empilhando cadernos e apostilas de pré-vestibular, passa encanado o ribeirão do Itororó, que vai desaguar no ribeirão Anhangabaú, na região central de São Paulo.
A obra de Rodrigo Sassi não nega a origem. A vivência em uma urbe de convivência difícil, que encapsula a natureza, mata horizontes e tem mobilidade nada fluida gera ressonâncias na produção plástico-visual do artista. Depois de um início mais ligado a intervenções na cidade em um âmbito mais coletivo, ele agora se volta para o trabalho detido em ateliê, a realizar peças tridimensionais que tanto podem ser esculturas já finalizadas ou instalações que ganham por fim contornos e volumes nos espaços específicos onde são colocadas _ é o caso de Dentro está contido em algo, individual do artista que faz parte do Programa de Exposições 2014 do CCSP (Centro Cultural São Paulo).
A instalação agora apresentada representa um passo a mais na complexidade da realização de tais trabalhos. Não é suspensa como Entre o céu e a terra, bolhas, nem é tão aberta como Perspectiva Naval e tampouco é tão rígida e reta como Daquele que se reproduz. Dentro está contido em algo tira partido das especificidades do piso Flávio de Carvalho, para onde foi montada. O pé-direito baixo, o chão de cimento queimado e as estruturas metálicas, de iluminação e de concreto que quase tangenciam a peça são alguns dos elementos que certamente ‘contaminam’ a configuração final da obra, que instiga por sua disposição nada linear.
Nesse ponto, é interessante comentar mais sobre o processo de Sassi, que recolhe essas estruturas de madeira de canteiros de obras e, com elas, cria um tipo de desenho expandido, de linhas e traçados ao mesmo tempo brutos (pela rudeza do material, basicamente madeira e concreto) e refinados (cada vez que o artista desenvolve mais tais trabalhos, sua colocação no espaço adquire mais complexidade). No caso do projeto para o centro cultural paulistano, Sassi cria o conjunto sob um interessante jogo de expansão _ em especial nas ‘tiras’ que se ‘soltam’ das paredes expositivas e se conformam isoladamente, numa espécie de respiro _ e constrição _ na parte mais central da obra, em que, a priori, as ramificações do material parecem ter vida, dobram e se estendem em direções e sentidos variados, dando de cara com ‘acidentes’ das estruturas reutilizadas, e, assim, têm de se conter em razão dos contornos que o próprio espaço expositivo impõe. Portanto, borrando os limites do tridimensional, da instalação e do desenho, entre outros meios, Dentro está contido em algo esculpe sua poética particular.
Outro ponto importante ligado à análise da obra do artista é perceber que ele contribui para uma renovação do tridimensional brasileiro, suporte que não tem sido muito privilegiado por novos autores _ isso é evidente em editais, salões e exposições de final de curso. Dando sequência ao desenvolvimento de produções robustas na linguagem, como as de Angelo Venosa, José Resende e Nuno Ramos, entre outros, Sassi pertence à leva recente de artistas que lidam com o espaço de maneira nada temerosa, enveredando por caminhos diversos. Nessa linha, podemos citar os paulistas Estela Sokol, Henrique Oliveira e Adriano Costa, cada qual com uma poética própria destacada e singular. E, num contexto mais amplo, não é recomendável desprezar os avanços de correntes como a arte povera, o pós-minimalismo e até a land art, numa leitura algo evolutiva da história da arte. Portanto, Kounellis, Morris, Hesse, Smithson e Heizer, entre muitos outros, têm seu lastro de contribuição artística no bojo dessa produção novíssima.
Lendo dessa maneira, é atraente então pensar que poéticas fincadas no banal e no cotidiano não parem de ressoar. Toda essa reutilização matérica assinada por Sassi salva-a do destino final apenas do descarte, da basura, e ganha novo status de existência. Em um contexto urbano de grandes metrópoles, circulações maximizadas e espaços divisíveis quase ad infinitum, Sassi reinventa a sua trajetória como pintor _ na série Pinturas infiltrórias, ele fazia com que cores, linhas e volumes se desenhassem a partir de um movimento físico e não controlado de dentro para fora da superfície, como uma infiltração numa casa _ , dá novo vigor à relação entre a obra e a urbe _ agora por meio de um trabalho mais detido e planejado em ateliê, contudo ainda aberto ao acaso do lugar _ e galga degraus com coragem por entre o tridimensional, direção desconsiderada por muitos dos seus pares de geração.

Mario Gioia