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Inacabado

Inacabado

Há algo de inacabado nas esculturas de Rodrigo Sassi. Isto está longe de ser um erro ou um problema mas uma manifestação de como parte das esculturas se apresenta ao mundo na contemporaneidade. Estruturas em aberto que promovem uma alusão a organicidade assim como, em um diálogo sutil com o pós-minimalismo e a arte povera, à ideia de um canteiro de obras. Algo está por vir mas esse acontecimento nunca se coloca por inteiro, ou pelo menos escapa à forma como estávamos acostumados a perceber um objeto de arte. Esta, sem dúvida, é uma condição de como a arte percebe e entende um mundo fraturado, vil, cruel e ao mesmo tempo dinâmico, frágil em suas relações, e atravessado por uma torrente de informações. A imagem do canteiro advém já que diante de nós está exposto o sistema do tipo viga e coluna, comum à maior parte de nosso ambiente construído. Além disso, os materiais utilizados (madeira, concreto e metal) pelo artista reforçam essa ideia. Eles são comuns, pesados, industriais, o que favorece livres associações com processos de construção. Na presença marcante e sólida, portanto nada efêmera, das suas obras tornam-se visíveis jogos antagônicos, sintaxes díspares de atrito e afeto e incompletude e construção.
Suas esculturas operam com a verticalidade construindo uma espécie de volume irracional: um conjunto de elementos periféricos privados da lógica de um núcleo construtivista. Somos forçados a experimentar o peso e a dimensão reais das madeiras e o caráter precário de sua relação. As imagens de abertura e inacabamento também surgem na alusão que Sassi transmite nos títulos de suas obras. Em determinado momento referem-se a navios, em outros a uma lógica urbana (Treze pares e meio de esquinas ou Esquina de lá # maior) e esse modo de revelar o mundo contribui para refletirmos que sua obra não é um site-specific, mas que ela extrapola o lugar além daquele em que está instalada. São esculturas que convocam o espectador para que sejam atravessadas. Querem pertencer ao mundo também como forma de troca e afeto, como uma pele da cidade. Situam-se numa fronteira entre um dado arqueológico (e especialmente em Perspectiva naval há certa proximidade com um elemento arcaico) e a imagem de um esqueleto ou osso e cartilagem (daí a ligação com a organicidade e o inacabado). É fato que esses “simulacros” têm suas bases, na arte brasileira, em artistas como José Resende e Angelo Venosa. Não quero realizar nenhuma comparação entre a obra de Sassi e a desses artistas, porque trata-se ainda de uma trajetória razoavelmente recente, mas estabelecer marcos e referências para a sua obra.
Ligeiras e instantâneas ou espessas e rebuscadas, suas esculturas prescindem da contemplação e querem a experiência. O algo a ser feito ou completado, citado anteriormente, é esse encontro entre obra e espectador, a experiência da sensibilidade, do toque, testar e conhecer a matéria, a irregularidade da superfície, seus erros e imperfeições. A própria constituição em sua grande parte formada por dobras mostra mais uma vez o caráter celular da obra. É nesse campo de aproximação por meio de distintas alegorias sobre arte, cidade e sujeito que a obra de Sassi encontra seu ponto nodal. EXPT 04, uma obra constituída em madeira, concreto e metal, é fixada a parede por meio de estruturas de madeira e parafusos, situando seus planos vincados, dobrados e desdobrados em articulações que criam um espaço situado entre a bidimensionalidade e a tridimensionalidade. EXPT 04 é uma construção fixada à parede nascida das contorções das formas que criam um environment. Suas dobras, demarcando planos, produzem o intumescimento do suporte: o “plano” “aumentou” de volume: desdobrou-se, ‘inchou’, rompendo com a bidimensionalidade. Elabora-se então uma construção geométrica no espaço real: apenas planos levantados marcando direções no espaço exterior. De modo geral, Sassi torna maleável a madeira e o concreto, transforma simbolicamente materiais rígidos em “formas moles” e confere uma elasticidade à matéria inerte. Suas torções revelam a flexibilidade da madeira e portanto uma outra qualidade dessa matéria que quase sempre esteve associada a rigidez. Suas obras de grande dimensão e exteriores ao cubo branco não necessariamente dialogam com o lugar em que são apresentadas mas nos mostram o quanto a arquitetura faz parte do repertório de sua criação poética. A obra de Sassi faz parte de uma geração recente que ao mesmo tempo em que dialoga com a produção escultórica do pós-guerra, principalmente a americana no que tangencia as questões que o minimalismo revela para o campo escultórico (os profundos efeitos sobre a escala, a colocação e os materiais da escultura, bem como sobre os procedimentos de sua elaboração e uma estratégia formal de descontinuidade), trava um diálogo com o panorama da arte brasileira nos anos 1970 em relação ao uso de materiais rígidos ou industriais que ordenam o mundo através de uma visão fenomenológica (além de Resende, podemos destacar a produção de Carlos Fajardo, Carlos Zilio, especialmente a exposição Atensão realizada no MAM-RJ em 1976, Umberto Costa Barros, Waltercio Caldas, dentre muitos outros), revelando portanto as referências assim como novos caminhos da nossa produção.

Felipe Scovino