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Vã filosofia

Vã filosofia

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha sua filosofia”, diz Hamlet a Horácio em uma das frases mais famosas – e mal traduzidas, ao que parece – da peça de Shakespeare. É o personagem principal que diz que entre esses dois pólos, supostamente distantes e separados, “há mais coisas”. Há mais coisas do que aquilo que podemos ver ou entender, há o inexplicável, o inapreensível, aquilo de que todos os homens estão fatalmente apartados. O diálogo se passa logo depois dos personagens presenciarem a manifestação de um fantasma (o pai de Hamlet, que volta pedindo vingança) e quando eles elaborar o estranho acontecimento.
De um lado, o mundo celestial, habitado por anjos, corpos descarnados, espíritos que vagam por aí sem peso, sem obstáculos nem barreiras. Do outro lado, a terra, onde a gravidade opera, onde os homens carregam suas carcaças, arrastam-se com dores e mazelas impregnadas em seus corpos, matéria orgânica em constante decomposição.
Eis um pequeno preâmbulo. Motivado, certamente, pelo título do trabalho de Rodrigo Sassi “Entre o céu e a terra”, 2013, apresentado no Paço das Artes em São Paulo. Quando li o nome do trabalho na etiqueta, alguém sussurrou em meu ouvido: entre o céu e a terra há apenas nossa vã filosofia. A lembrança da frase me fez pensar que o trabalho guardava algo semelhante a uma aparição fantasmagórica. Mas, enquanto o fantasma desce para a terra, o trabalho de Rodrigo quer subir aos céus. Elevar-se. Deixar para traz suas características terrenas. Anular seu peso, flutuar. Esquecer sua origem e a matéria rude de que é feito: madeira e cimento.
O trabalho de Rodrigo normalmente começa fora do ateliê. É nas sobras de obras da construção civil que o artista encontra a madeira com a qual trabalha. Os resíduos desses grandes empreendimentos são o ponto de partida para o artista montar, em seu ateliê, grandes e compridas formas e preenche-las com cimento. As formas são retalhos, recortes trabalhados artesanalmente pelo artista. Depois de muito lidar com o material, hoje Rodrigo é capaz de dobrá-lo. Consegue montar as suas peças com bem entende. Faz curvas com a madeira, não apenas curvas sutis, mas verdadeiras inversões, subvertendo o caráter rígido do material. Essa parte do trabalho é feita no ateliê. Aquele corpo-a-corpo, tão conhecido de alguns pintores e escultores que têm práticas mais manuais. É lá, naquele ambiente fechado e separado do mundo, que a alquimia acontece. A matéria pesada torna-se uma linha, um vetor, uma indicação de movimento. Retirada da rua, a matéria é capaz de erguer-se, escorar-se em paredes ou apoios improvisados e subir, expandir-se, mover-se.
A peça que Rodrigo criou para o Paço das Artes vai além disso: almeja flutuar. Fixa-se no ambiente por meio de cabos que pendem do teto, criando uma sensação de leveza. Talvez seja esse o ápice e o limite da pesquisa que ele vem empreendendo com esses materiais. Enfim, eles flutuam. Como a suposta martelada na perna de Moisés: “Parla!”
O que mais interessa pensar, diante dessa peça – ou deveríamos dizer aparição? –, do meu ponto de vista, do ponto de vista da nossa vã filosofia, condenada a não estar nem no céu, nem na terra mas justamente no meio, é o que não funciona nesse processo de sublimação. O que permanece terreno, pesado, corpóreo, para além dos esforços e da habilidade do artista em desmaterializá-lo.
Saindo de uma prática da arte urbana, o artista conserva da rua, hoje, apenas os materiais com que trabalha. Ao fortalecer a prática de ateliê, seu trabalho ganha mais atenção e visibilidade em galerias e espaços expositivos tradicionais, incluindo museus como o Paço das Artes. É como se, para habitar o espaço museológico, a matéria vinda da rua tivesse que ser purificada a tal ponto que quase desaparecesse. O trabalho de Rodrigo Sassi faz pensar nesse espaço entre. Entre o céu e a terra, entre a rua e o museu, entre o trabalho manual do artista no ateliê e o esforço intelectual do público em degluti-lo. Que espécies de fantasmas habitam essa brechas?

Thais Rivitti